eu pretendo viver pra sempre
muito mais do que um pau grande,
é preciso ser macho, ser fêmea, ser elegante.
Obsessivas?
Aquelas que contra a crendice vulgar de que os puros desaprendem o corpo, vivem a alma?
As 'fáceis'
As de carne escura?
Peladas? Transparentes?
As que crescem à sombra da fétida cidade onde ser liberto é falta de pudor?
Frêmito constante, peitos, bunda, vórtice estonteante, corpo grave, porra, gozo, linha nua.
Nenhuma, digo, nenhuma mulher merece desrespeito
mas isso, claro, é uma opinião minha.
desrespeito | s. m. |
1ª pess. sing. pres. ind. de desrespeitar |
(des- + respeito)
(des- + respeitar)
Um dia
quando eu tinha quinze anos
vi uma plantinha no meio da estrada
não era nem uma flor e era negra
Os carros passavam por cima dela
E os caminhões
Eu quis arrancá-la com todo o carinho
para que ela vivesse
Cheguei a me deitar na estrada
Quase morri atropelada
mas não consegui arrancar a plantinha
E os carros continuavam passando
E ela ali. Viva
Hoje sei que foi ela
a coisa mais deslumbrantemente bela
que já vi
Ela era a própria vida
porque havia atravessado o impossível
Memórias de uma Mulher Impossível . Rose Marie Muraro
(Ferreira Gullar)
A parte mais durável de mim
são os ossos
e a mais dura também
como, por exemplo, este osso
da perna
que apalpo
sob a macia cobertura
ativa
de carne e pele
que o veste e inteiro
me reveste
dos pés à cabeça
esta vestimenta
fugaz e viva
sim, este osso
a mais dura parte de mim
dura mais do que tudo o que ouço
e penso
mais do que tudo o que invento
e minto
este osso
dito perônio
é, sim,
a parte mais mineral
e obscura
de mim
já que à pele
e à carne
irrigam-nas o sonho e a loucura
têm, creio eu,
algo de transparente
e dócil
tendem a solver-se
a esvanecer-se
para deixar no pó da terra
o osso
o fóssil
futura
peça de museu
o osso
este osso
(a parte de mim
mais dura
e a que mais dura)
é a que menos sou eu?
o braço cansa e o dedo dói,
mas............................................................................. ..............................
eu..........................................................................................................eu..
gosto................................................
.
.
Quantos minutos vai demorar para que você arrombe esta porta e invada esta sala? Estou sem calcinhas, não posso sentar. Não que este fato tenha alguma remota ligação com o que acabo de fazer. Só preciso pensar em alguma outra coisa que não seja este homem debaixo da mesa, pressionando meu ventre com as duas mãos já completamente encharcadas de gozo.
.
.
Não sei se foi Platão ou minha mãe que me ensinou a ser metade incompleta. Sei apenas que sou (ou quase sou, por ser metade). Como se sozinha eu não fosse inteira, precisando sempre ser dois. Aprendi por inteiro a ser essa metade – e agora não sei desaprender. Meio feliz. Meio completa. No meio do caminho. E o meio que resta é pra ir – até você - e não ter volta.
.
...............................................mas quando amo não sou eu. Quando amo, me esvazio de mim para ser ele. Eu me anulo para ser ele. Não compreendo como sou mais eu logo quando não sou. Como me sinto plena quando saí de mim. Como me sinto lúcida ao desarticular o senso. Como me sinto guardada ao me desperdiçar. Ao me sacrificar, acredito que me reencontrei.
Quando amo cedo minhas convicções, meus preconceitos, minhas verdades. Abdico para dar lugar a quem chega com sua escova de dente e seus xampus. Abro espaço no armário, vinco as roupas prediletas. Renuncio a lonjura da cama. Capaz de dormir na esquerda, mudar os hábitos e ler o jornal por segundo. Antecipo-me nele para me atrasar em mim. Privo-me da vergonha, da reputação, da moralidade, para esmolar meu corpo de volta. Ou o que julgava corpo antes de encontrá-lo. O corpo é a generosidade de perdê-lo. O corpo é o espaço entre ele e eu.
É impossível sarar de um amor. Escapo-me do que sou, mas não daquilo que preciso e que não encontro sozinha.
O amor mostra que qualquer coisa é modificável, qualquer passado, qualquer temperamento,
menos o amor.
.
Não durmo depois do sexo. O sexo me dá insônia. Fico acordada de madrugada. Há um defeito em mim que não reduz a eletricidade após gozar. Minha insônia não muda a claridade. Desembrulho minhas roupas para descobrir teu cheiro.
Refaço o ritual da merenda da escola, o guardanapo que envolvia um pedaço de bolo ou um doce? Meu cuidado para não ferir a fome. De onde, afinal, veio esse distúrbio?
E me vi sozinha, sem ninguém por perto. Incomensuravelmente só. Não conseguia sequer saber em que lugar estava. Ao redor, tudo limpo, seco, sem som, sem eco, sem céu. Pela primeira vez, estava só. Queria, precisava me lembrar de tudo que não ficara gravado em minha memória, de tudo aquilo que estava submerso nos fatos que relembrava, é era isso o que importava. Nadaria naquelas águas geladas. Lembranças que estão no fundo da casa, por baixo da zona sensível, muito por baixo do sangue. Lembranças com todos os dedos de prosa roçando os buracos dos sentidos, êxtases, prazeres, rabiscos iniciais para o nosso catecismo. Era hora do lambuzamento sem cerimônia, deixar o nariz pleno daquele cheiro, Hollywood, Lux, deluxe, tudo lindo a escorrer. Poeira da rua. Dentro do joelho, no entre as virilhas. Na cova umbigo, talvez na quinta vértebra. Rasgando-me a boca, engolindo. Poucos, parcos, vastos, vistos. E a vida serve serva nua agasalha-me o ventre vadio de constelações, digo-me fêmea fazendo a limpeza destes pecados restritos às manhãs nos motéis. Era o que de fato possuía relevância em minha vida: encontrar aquilo que estava sob a água, e que geralmente, como nos icebergs, é oitenta, setenta por cento daquele pedaço de gelo que se deixa mostrar. Mas, tampouco é algo que se aprenda ou se mostre com as palavras...
Dizem que mulher agoniza seus instintos
Em mim, o destino procedeu conforme os mandamentos
Minha agonia é um silêncio-gato: espreita-me os passos internos,
estreita meus poros, encrespando-me uns pedaços
Agüento ser tanta, ter sobre a pele escaras, escarpas
Desnudo-me devagarziiiinho, enquanto olhares alheios
tijolam-me o corpo
Mas nascida assim, tangenciada assim,
pelos ventos e vergonhas, arrio minhas carnes
Sou tímpano e pupila
prometo, para dias de ilusão
Julieta Venegas,
gozar baixinho,
té con limón
.
Eu recomeço com a certeza de que não houve testemunhas. Um beijo morno e essa conversa surda com o momento do meu homicídio. Me permiti ser enforcada pelo abraço do que seria uma serial killer perigosa, silenciosa, com aparência inofensiva de balconista.
Mato, não confesso e repito os rituais. Escondo o corpo dela em meu próprio corpo.
Mato porque aguardava o elogio e recebia de volta a verdade. Ela me corta, me incomoda e traz a boca estranhamente carregada das minhas personalidades inacabadas e falhas. Mato ou ela me mata.
Eu, mínimo estremecimento, me permiti sofrer com a mais extraordinária vontade de não recuar.
A boca suja, o assoalho se abrindo, drenando o sangue frio da minha casa.
Mato colocando pra fora o que precisava, reintegrar ao armário o que temia rever.
Agora sou toda ossos e lembranças deslocadas. Ela me mata.
E recomeço com a certeza de, só de vez enquando, [precisar] morrer.
ele cola seus olhos nos meus. como uma luneta.
o nariz frio é a ponta de seu dedo me reconhecendo. ele não me entende.
busco explicar saudade para suas pupilas paradas de caçador.
a saudade que é saber a importância do que nunca se teve.
essa saudade que é escrever o que se precisa ler.
Silvia não sabe dançar. Inda assim, ela não tem nenhum embaraço. Perdeu qualquer medo do ridículo em uma única dose. Num único dia. É a voluntária perfeita calando a razão com uma coragem descabida, só possível a quem não possui mais o pudor de ser humano. Quando esta conjunção está pronta dentro do peito, o resto é simples. Rápido. Sete-oito. O passo de ballet em que antes mesmo da ponta do dedo encostar no chão, vinda do rodopio, já se está em outro. Pois quando a coragem se esvai como nuvem, já amanheceu, e tudo ficou escrito em papel manteiga de embrulhar segredos.
Ela apenas queria tocar nos cabelos dele como se fosse barba, para o pêlo crescer no minuto seguinte e ela recomeçar. Como se fosse boca para não deixá-lo falar a não ser em sua boca. Mexer os dedos com rapidez, com agilidade de joelhos correndo. Mexer os dedos com a navalha que está escondida na tesoura e que só ela conhece. Ela fecha os olhos e imagina que a primeira noite não terminou, não começou, não existiu, para ser repetida. Não há como varrer os fios castanhos que ainda não foram cortados. Não há como recolher com a pazinha os fios castanhos que ainda não foram cortados.
Quem ler essa história julgará muito pouco, muito escasso, muito fugaz o encontro para acreditar em um amor. Foram um abraço, frases desconexas e umas promessas.
Mas o amor trata de imaginar o resto. O amor é o resto.
.
E sou obrigada a voltar a querer o que na verdade sempre quis.
.
Não quero sugar todo seu leite
Nem quero você enfeite do meu ser
Apenas te peço que respeite
O meu louco querer
Não importa com quem você se deite
Que você se deleite seja com quem for
Apenas te peço que aceite
O meu estranho amor
Ah! Mainha deixa o ciúme chegar
Deixa o ciúme passar e sigamos juntos
Ah! Neguinha deixa eu gostar de você
Prá lá do meu coração não me diga
Nunca não
Teu corpo combina com meu jeito
Nós dois fomos feitos muito pra nós dois
Não valem dramáticos efeitos
Mas o que está depois
Não vamos fuçar nossos defeitos
Cravar sobre o peito as unhas do rancor
Lutemos mas só pelo direito
Ao nosso estranho amor
Palavra é uma coisa pedaçuda, sabe? Com endereço, com respiração cortada por suspiros. Com acenos como os de quem viaja na janelinha do avião.
Por hoje, precisamos de mais duas ou três destas - palavras. Por agora é preciso sorrir. Pelas próximas horas, é preciso lembrar. Pelos próximos dias fica proibido não dormir de conchinha.
.
Prometo me comportar como uma adulta, cosmopolita, ciente de impostos e dos motivos da guerra no oriente médio. Consigo. Mantenho a espinha ereta enquanto corto em pedaços pequenos minha vontade de bordar uma colcha, assar um bolo, arrumar teu banho. Me masturbo. Saio pra dançar, te lembro vagamente quando toca aquela música, sabe aquela? Something Out Of The Blue. Aceito que me paguem uma bebida, digo sim para a carona, subo as escadas de dois em dois. Sonho com você. E minhas verdades vão embora, resignadas.
.
O delírio repetindo igualzinho. Você me emociona. Parece feito de terra. Queria te mostrar como é violento você existir. Meu olho dói quanto te vê. Queria te morder os dentes, te comer, te enfiar dentro de mim, fechar as pernas, morrer. Eu poderia passar o resto da vida acreditando em você e te dizendo “vem…”, “vem cá ver como é…”.
.
Sempre achei que o amor, que o grande amor fosse incondicional. Que quando houvesse um grande encontro entre duas pessoas tudo pudesse acontecer. Que quando duas pessoas se encontram, quando este encontro acontece, pode trair, brochar, azar, todas as porradas. Sendo o grande amor, ele voltará triunfal, sempre. Mas não, nenhum amor é incondicional. Então, acreditar na incondicionalidade é decididamente precipitar o fim do amor. Porque você acha que esse amor aguenta tudo, então de um jeito ou de outro você acaba fazendo esse amor passar por tudo. E um amor não aguenta tudo. Nada nessa vida é assim. Daí você fala que esse amor não tem fim, para que o fim então comece. Um grande amor não é possível – e talvez por isso é que seja grande. Assim, nele obrigatoriamente cabe, tem de caber também o impossível. Mas quem acredita? Quem acredita no impossível? Se não apaixonadamente? Como a um Deus, incondicionalmente?
Depois que você a vê, vê que o dia não era dia, vê que o ar não sustinha o ar. Vê que não via. E então percebe o deslizar de sussurros e sigilos, a linguagem que é confiada de boca a boca, na proximidade daquele beijo selvagem, mas beijo, mas selvagem, que é um vulcão (e é por isso que ao seu lado faz tanto calor). E o mundo pode espernear à vontade pois você acredita no impossível. E quem acredita no impossível? Se não apaixonadamente? Como a um Deus, no amor, incondicionalmente?
"No embrião de todos os romances, bule uma inconformidade, late um desejo."
Mario Vargas
.
… destrancou a porta rapidamente e puxou o pulso de Ana para juntar o corpo dela ao dele. Contudo, não havia brecha nem tampouco sentidos que os desviassem do beijo e o disco do Pink Floyd estava no fim. Ela deitou-se na cama em posição fetal. E João trancou a porta dando uma passada rápida pela escrivaninha a fim de esconder seus esboços antes de se juntar a ela.
(Uma lagartixa, do teto, vendo-os deitados um de frente para o outro na tal posição fetal, se admiraria em ver formado pelos corpos um desenho de coração na cama).
Ana tinha uma melifluidade de coisa perigosa que procura colo. “O que é isto?”, a testa enrugada… João não sabia do que ela era capaz… Naquela idade, provas de amor eram provocadas a todo instante. Ela materializava a verve segundo a qual a ameaça doía mais do que uma agressão levada a cabo. Quando estava na casa de João, andava sobre o assoalho sem despertar a contumaz rabugice das madeiras velhas. Não o fazia como uma entidade etérea. Mas como o mais astuto dos ladrões. Uma espécie de rã com uma língua enrolada em armadilha, pronta para esmagar mosquitos distraídos. Os olhos de peixe com pálpebras e cílios causavam-no arrepios. Ela já havia conquistado nele o medo de abandono.
João então agarrou seu maxilar e mais uma vez se perdeu na escuridão dos olhos dela. E ela sentia-se impotente e aquele beijo longo foi mesmo uma surpresa com a qual ela nem mesmo sabia o que fazer (...)
Seu destino rapta sua tela. A cidade, a roupa, o bairro, a casa dela. Ele reza toda noite para encontrar outra mulher. Não é força de expressão. Tudo para esquecer alguém que sequer diz sim ou não, que não descarta a possibilidade, muito menos assegura certezas. Ele tem namorada. Ela tem namorado. Há três anos se amam em segredo e explodem quando juntos e se esfriam quando separados. Não mudam de vida. Ele já arriscou completamente: ficou solteiro, se distanciou dela, avisou que não mais se encontraria e não houve jeito de convencê-la. Mas ao receber uma mensagem dela no celular, ele corre para tentar de novo. E tenta como se fosse a primeira vez. E tenta como se fosse a última vez. Por fora, já desistiu. Por dentro, sempre descobre alguma desculpa para recomeçar. Ele não se sente vivo para fazer mais do que isso. Ela não se sente morta para desistir. Perderam a confiança ao longo do período. Não entende o que o impede de ser feliz com ela. Ela quer Madri. Ele quer Moscou.
Ela reza toda noite para encontrar outro homem. Constatou que não adianta rezar contra ele. Ele é a sua fé.
Meu tempo é curto, o tempo dela sobra
Meu cabelo é cinza, o dela é cor de abóbora
Temo que não dure muito a nossa novela, mas
Eu sou tão feliz com ela
Meu dia voa e ela não acorda
Vou até a esquina, ela quer ir para a Flórida
Acho que nem sei direito o que é que ela fala, mas
Não canso de contemplá-la
Feito avarento, conto os meus minutos
Cada segundo que se esvai
Cuidando dela, que anda noutro mundo
Ela que esbanja suas horas ao vento, ai
Às vezes ela pinta a boca e sai
Fique à vontade, eu digo, take your time
Sinto que ainda vou penar com essa pequena, mas
O blues já valeu a pena
Chico Buarque/ Essa Pequena
Teu riso não é o mesmo riso. Há tantos risos em ti, que ainda não descobri todos. O riso macio, do sono, das pernas esticadas no lençol novo. O riso de sobra, da fugacidade deliciosa. O riso que peguei emprestado como um livro e não devolvi e de vez em quando ele ri sozinho dentro de minha boca, sabe? sem saber ao certo qual foi dos teus risos que trouxe pr'aqui.
Não importa em que tempo estávamos. A pele macia como qualquer fruta depois da chuva. Nossos vícios perfeitos, nossas virtudes imperfeitas. Um silêncio de lado, sem importância. Um silêncio que não silencia. O que eu sou, o que posso ser, o que posso não ter sido, as Annas que se anularam, que se encontraram, que desistiram, que se alcançaram amam ele. Até o que eu não vivi ama ele. Até o que não suporto em mim ama ele. Seus olhos fixos que se abaixam quando pretendem me convencer. Seus olhos fixos: eu beijo seus olhos como quem recolhe uvas do telhado, para recordar o que não existe. A diferença entre o inferno e o céu é que o inferno foi construído e o céu descoberto. Depois de uma vida juntos, não há como dizer que ele não me esperava em mim antes de me conhecer, que eu esperava nele antes de me acontecer. Somos duas esperas que puxaram conversa enquanto aguardavam Deus. A língua dos peixes é a mesma língua dos pássaros. João me roubou para me devolver.
Mas o sentido que as coisas fazem – se fazem – está, oculto e também aparente, na descontinuidade quase absoluta que conta sua ‘história’ de pontas soltas, fios das coisas.
(...)
12. Desagregar-se.
13. Desunir-se.
14. Partir-se.
15. Desligar-se.
16. Afastar-se.
17. Despegar-se.
18. Dividir-se.
19. Divorciar-se.
20. Deixar de viver em comum.
tem muitos ‘melhores’ nesta cidade onde dei de parar.
melhor pastel de feira.
melhor esfirra.
e acrescento:
melhor livro, o mais belo desenho, melhores frases de, melhor mesa do restaurante, melhor filme, melhor puta que o pariu.
puta que o pariu, minha vontade de puxar teu corpo como uma cadeira,
é isso.
que eu não o amava mais, isso não restava dúvida, mas o que doía, me arrastava e consumia, era a forma como ele me amava: intensa, arrebatadora, uma entrega incondicional. Ele me acompanharia ao inferno, se necessário (até agora me pergunto por que rompi)
...
troquei João pela solidão,
(...)
Ela acorda a luz para dormir. Fala com as sobrancelhas. Canta para não esclarecer o desejo da fome. Canta para soltar os cabelos. Para se partir com rumor e violência, reunindo-se pacificada fora de si. Não se dispersa no visível, concentra o invisível dentro da unha. Está entre o grito e o sussurro, numa casa aérea. Anda imensa em passos miúdos, arde como se a boca fosse um carvão súbito de vento e chama. Uma árvore acendendo velas na procissão do sangue. Há um teatro aberto em seu ventre. De onde parte a voz, sem indulgência, sem compaixão. Nas igrejas, restaurantes, varandas, não repara em outra coisa a não ser a acústica. Nos olhos, procura a acústica. Um espaço sonoro para ser sondado. Um espaço para desmentir o vidro, a névoa, o umbral das calhas. Um corpo de espaço dentro da voz. Ela abre o silêncio com os dentes, mordendo de leve os ouvidos da altura. Com a pressa do rigor, sopra o que não pode ser dito. Não se esgota, não acaba com quem ela é, não termina de iniciar. Bebe o sopro com medo de se conhecer, com a coragem do medo. Suave, suave, guarda respiração para o retorno. Esconde o dom como um segredo maior do que sua vida. Talento tão evidente que parece difícil, inadmissível, alheio. E o espelho torna-se um esquecimento lento. Talvez se encontre em alguma garagem recitando Belo Belo, amansando os motores e os faróis. Talvez se encontre na mesa com os amigos, com a certeza, involuntária e sem ninguém para contar, de que nasceu depois de sua voz.
A Ana não guarda as cartas de amor.
Ela quer achá-las de repente. Em outro dia, em outra idade. Dentro de um livro, na gaveta, na bolsa.
A Ana se guarda para as cartas de amor.
As cartas de amor deveriam ser fechadas com a língua, como antigamente. As cartas deveriam ser beijadas antes de enviadas. Sopradas. Respiradas. O nosso ar dentro do envelope. As cartas de amor deveriam ser fechadas com a língua. A saliva acalma um machucado. A umidade lenta. A gentileza. Não a cola isenta, neutra, mas a língua, o contágio. Ana tinha um dom para molhar a correspondência antes de fechar. Metade da língua desenhava. A sobriedade da sobra. Ana não mandou as cartas que escrevia. Ficaram em uma gaveta, depositadas ao lado da caixa de costura. Nunca abrimos sua correspondência. Não violamos seu segredo. Não queríamos saber se havia um amor oculto ou a repatriação do nome de solteira. Colocamos no bolso de seu casaco quando ela partiu. É recomendável não descobrir todos os segredos. Assim a vida morre mais tarde.
(...)
Ela escrevia cartas de amor. Não eram para ninguém. Escrevia cartas de amor como quem tenta distrair o amor até ele chegar. Ela provocou o amor. Fez de conta que existia para parecer ocupada. Um homem sem amor é um homem sem fé. Tantas vezes se declarou sem ter nada para cumprir. Quando o amor chega, as cartas de amor são desnecessárias. Há mais imagens do que palavras. E a letra treme como uma pálpebra.
A mulher nua andando pela casa
desastrada, descalça, grosseira, realçada pela claridade que vem da janela sem cortinas
Taco de duas cores, móveis e uma coleção infinita de bloquinhos e palavras cruzadas
A mulher nua tem um nome
sai do banho na ponta dos pés, desequilíbrio que passa á dança (uma ligação quase automática)
Sombrancelhas da década de 40 mal terminadas, coxas implacáveis, seios oferendados
gozo que escorre pela asseada toalha
Trepadas no chuveiro enquanto as pessoas tomam cerveja na sala
Fica lá, senta na poltrona, depois no sofá, depois na cadeira, nua
E de perna aberta
Não canta, não faz barulho, dançarina desajeitada aos 30
No recinto de quatro paredes
pensa nele, caminhos, cabelo, cimento áspero da barba
enfia um dedo, depois outro, e goza, goza
(...)
(coisas que os homens (não entendem) e não vêem)
Tiro a minha roupa inteira. Agora é lavar o suor (o novo e os antigos), os hábitos (todos antigos), a dureza da pele em volta das unhas do pé (mas não a dureza geral, pois esta é útil), o peso (de sempre) nos olhos e esta mania que às vezes eu tenho de inclinar a cabeça para um dos lados.
O beijo dele depende de imaginá-lo me beijando
no momento em que realmente me beija.
Um beijo que não volto.
Sei pelo beijo que não volto
Nos encontramos num bar.
Ele me disse que eu o inspirava
e foi isso o que ele fez:
inspirou-me todinha.
E eu adormeci às margens de um abismo.
'Fulana é louca'
Louca por quem?
Já perguntaste?
Corta as unhas, que apara muito rente da pele.
Desculpa, tudo que ela viveu foi rente à pele.
Indireta, oblíqua e
inadequada.
A gente aprende o tempo todo. Com o moço que respira em cada palavra, com alguém que te xinga a mãe. Todo blog é uma praça. Tem passarinho, balanço, sorveteiro e cocô de cachorro. Tem horário marcado e freiada brusca na rua em frente. Queria escrever “Copacabana”. Escrevi. Queria escrever “a gente se encontra”. Tá aqui.
E se escrevo tantas vezes “amor” é porque das poucas coisas sobre as quais raramente temos dúvidas são os nossos sentimentos. Tenho certeza: amor.
Curioso que “amar” pode ser uma decisão mental – no que isso tem de escolha, não de frieza. Tô pensando na coisa toda da intuição ser o paroxismo da razão… Enfim
(...)
Queria escrever o nome de um monte de gente.
Queria contar da máquina do blog.
Queria te contar da vida, da minha vida.
(e do mar sempre)
(e de um menino…)
Olá, me chamo fulana. O coração não deixo apagar. Aquela que nadou em um gole. Adeus, quase não me chamo fulana. É um prazer. Estou partindo. E meu coração é seu.
Não conseguia parar de repetir: lindo lindo lindo lindo. Lindo lindo lindo lindo. Lindo lindo, lindo? Lindo lindo “lindo”: lindo! Lindô lindò lindõ; lindo, lindo. Lindo (lindo lindo (lindo)). Lindo lindo – lindo lindo lindo – lindo. Lindo… E não é só.
.
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“Eu tô totalmente na sua…”
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Coisas minhas
Do Homem ao Poeta
recolho as luminosas contas negras
do colar,
esta coisa que uma vez se moveu
em torno da carne,
e chamo Deus de mentiroso,
digo que qualquer coisa que
como esta
tenha se movido
ou conhecido
meu nome
jamais poderia morrer
na verdade comum da morte,
e eu recolho
seu vestido
amado,
esvaziado do amor que ela amava,
e falo
com todos os deuses,
deuses judeus, deuses cristãos,
pedacinhos de coisas brilhantes,
ídolos, pílulas, pão,
compreensões, riscos,
renúncias conscientes,
ratos na complacência de dois que foram às raias da loucura
sem qualquer chance,
consciência de colibri, sorte de colibri
apoio-me nisso,
apoio-me em tudo isso
e sei:
seu vestido cobre meus braços:
mas ninguém irá
devolvê-la para mim.
Charles Bukowski
Arquivo do blog
minicontos
Eu escolho
um homem
que não duvide
de minha coragem
que não
me acredite
inocente
que tenha
a coragem
de me tratar como
uma mulher
{Anaïs Nin}
Espelhos e desterros
"A linguagem é uma pele: esfrego minha linguagem no outro. É como se eu tivesse palavras ao invés de dedos, ou dedos nas pontas das palavras. Minha linguagem treme de desejo com a emoção de um duplo contato: de um lado, toda uma atividade do discurso vem discretamente, indiretamente, colocar em evidência um significado único que é: "eu te desejo" e liberá-lo, alimentá-lo, ramificá-lo,fazê-lo explodir; por outro lado, envolvo o outro nas minhas palavras, eu o acaricio, o roço, prolongo esse roçar e me esforço em fazer durar o comentário ao qual submeto a relação"
Bukowskiando
“Há um pássaro azul em meu peito
que quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo, fique aí,não deixarei que ninguém o veja.
Há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas eu despejo uísque sobre ele e inalo
fumaça de cigarro
e as putas e os atendentes dos bares
e das mercearias
nunca saberão que
ele está
lá dentro.
Há um pássaro azul em meu peito
que quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo,
fique aí,
quer acabar comigo ?
(…) Há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou bastante esperto, deixo que ele saia
somente em algumas noites
quando todos estão dormindo.
Eu digo: sei que você está aí,
então não fique triste.
Depois, o coloco de volta em seu lugar,
mas ele ainda canta um pouquinho
lá dentro, não deixo que morra
completamente
e nós dormimos juntos
assim
como nosso pacto secreto
e isto é bom o suficiente para
fazer um homem
chorar,
mas eu não choro,
e você ?”
Charles Bukowski































